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ACASO

Ano 1984. 25 de outubro. Inicio das aulas na Universidade. Tudo novo, colegas, cidade, casa, modo de ocupar o tempo, dúvidas, algum constrangimento. O pior foi lidar com a dor da saudade do espaço onde vivi e aonde pertenço. Fazia-me falta o cheiro das madrugadas de orvalho, o cheiro do fumo das lareiras a sair pelas chaminés, das couves frescas da horta logo ao sair do espaço da cozinha. Do tanque onde se lavava a roupa, do luar em noites claras. Seria falso dizer que tinha saudades das pessoas, com as exceções do pai, mãe e tio. 
A nova cidade é desmesuradamente enorme aos meus olhos, precisei de a percorrer aos poucos. Esse pequeno detalhe ajudou-me a localizar os sítios, a coordenar a direção do norte,sul, este e oeste da cidade. O centro não me fascinou. Encontrei locais, não longe do centro com campos enormes de milho, tão verde, tão viçoso, tão reconfortante esse verde, igual a tanto verde da minha aldeia.
A maioria dos colegas pareciam ser super super super divertidos. Descomplexados, animados, coesos, amigos, compinchas. Não fora  essa dor da saudade e a minha timidez e tudo poderia ser mais simples. Aos poucos aprendi a confiar, a descontrair e nunca em época alguma o meu índice de socialização se tornou tão sólido. E a uma distância de trinta e tal anos, nem uma memória clara de uma aula, um teste, um exame, uma frequência, contudo persistem no tempo os bons momentos de convívio e alegria.
No final do 1ºano conheci-te. Numa saída de campo comum, resultado de uma programação de uma cadeira. Considerei teres um bom astral, boa disposição e uma propensão para contar anedotas curtas. Fazias-me sentir em casa. Mais nada que isso. Contudo decifrei uma desmesurada concentração do teu olhar em mim e percebi que não te era indiferente. Nessa época namorar para mim estava totalmente fora dos meus planos. Semanas mais tarde disseste-me que poderíamos ser amigos, simplesmente amigos e isso achei muito bem. Passaram-se alguns meses e de repente passei a sentir a tua falta, a olhar-te com outros olhos. Não. Ainda não era amor. Mas sentia ser algo muito especial.

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