Pular para o conteúdo principal

Postagens

Mostrando postagens de março, 2017

Mudança da hora em 26 de março 2017

Tarde fria. Ar a cheirar a neve. A gatinha amamenta os seus filhos.Mal abrem os olhos. São encantadores e olhá-los faz-me parar no tempo e não pensar em nada, senão naquele instante em que as criaturinhas minusculas já sabem como lamber o seu próprio pêlo. Fascinante. A  árvore vai no 3º ano e teima em não dar frutos, urge fazer um enxerto. Não, não há necessidade de contratar um profissional,uma vez que existem tutoriais na internet para tudo: enxerto de plantas; como perfumar a casa com produtos naturais; retirar manchas das roupas; treinar o auto controlo; diminuir a ansiedade; assistir a longos discursos sobre temas filosóficos, políticos, religiosos, estéticos, etc... etc... etc... Tarda a vida ,por ser tao lenta, tão previsível, tão igual ... dia após dia...e no entanto o tempo está como sempre esteve...... fases de calor, de frio,de chuva, de neve ou nevoeiro....não pretendo negar as alterações climáticas,contudo as irregularidades,a imprevisibilidade sempre existiu desde...

Quando as luzes se apagam

O dia decorre com a velocidade de um TGV. Existem horas para tudo, sendo impossível ignorar o relógio. De 2ª a 6ª cresce um desejo quase secreto que chegue o fim de semana. E é muito bom não ter que cumprir horários rígidos, contudo multiplicam-se as tarefas domésticas. E também estas tarefas não podem ser ignoradas e bem cedo se percebe que ocupar as horas de trabalho não será assim tão bom. Quando as luzes se apagam e a noite vai longa "cai o pano". Aí a dor, o medo, a perplexidade face à doença e à morte ganha espaço e quase asfixia. Como contornar a inevitabilidade? Como diminuir a sensação de impotência face ao galopar de umas quantas células desordenadas que vão conquistando espaço quase à mesma velocidade de um TGV.

ACASO

Ano 1984. 25 de outubro. Inicio das aulas na Universidade. Tudo novo, colegas, cidade, casa, modo de ocupar o tempo, dúvidas, algum constrangimento. O pior foi lidar com a dor da saudade do espaço onde vivi e aonde pertenço. Fazia-me falta o cheiro das madrugadas de orvalho, o cheiro do fumo das lareiras a sair pelas chaminés, das couves frescas da horta logo ao sair do espaço da cozinha. Do tanque onde se lavava a roupa, do luar em noites claras. Seria falso dizer que tinha saudades das pessoas, com as exceções do pai, mãe e tio.  A nova cidade é desmesuradamente enorme aos meus olhos, precisei de a percorrer aos poucos. Esse pequeno detalhe ajudou-me a localizar os sítios, a coordenar a direção do norte,sul, este e oeste da cidade. O centro não me fascinou. Encontrei locais, não longe do centro com campos enormes de milho, tão verde, tão viçoso, tão reconfortante esse verde, igual a tanto verde da minha aldeia. A maioria dos colegas pareciam ser super super super divertidos....

Sábado, 18 de março 2017 - 16.49h

Tarde tão amena. Um sol quente e os pássaros que não param de cantarolar. As plantas estão viçosas. Eles vêm futebol, eu vim para uma cadeira baloiço colocada na varanda de propósito para ouvir os pássaros e fingir que não passam carros na estrada.  A tia faleceu. 23h de ontem, esperavam ainda o INEM, mas não houve nada a fazer. A causa "morte natural", dito pela GNR e equipa do INEM. Não é necessária autópsia. O funeral está marcado para as 16h de amanhã. Após algumas considerações iremos todos ao funeral. As crianças sabem quem é  a tia-avó, mas pouca ou nenhuma convivência tiveram com ela. Pessoa generosa, simpática, afável, acolhedora e tudo o mais que se possa dizer de bem. Teve uma vida difícil, grande parte passada lá fora. Tudo aguentou. Mas a maior dor foi não poder ter filhos. Contou-me vezes sem conta. Como se a sua vida se dividisse entre rezas, orações e missas e a dor de não ter filhos. Visitamos essa tia-avó tantas quantas vezes pudemos e quisemos, ressalvan...

DOR SILENCIOSA

2 julho 2012, 12.30h. Sim. Atendi o telefonema. Não era para mim. A biópsia diz algo mau. Urgente consulta. Operação para ontem. Cancro. Porquê? Porquê? Cancro intestino. Desorientação.Desnorte. Dor, muita dor....silenciosa, profunda, interior. A vida parece ter sido suspensa em 2 molas de roupa numa qualquer corda.  Os dias sucedem-se e nada se sabe que possa desvirtuar essa dor, essa quase revolta, e mais tarde essa maldita impotência. Sim, sou forte, aguento, animo, desvalorizo, minto vezes sem conta sobre as questões da força da fé. Mas que fé? Como posso tranquilizar-me com a fé? Por fora avista-se uma fortaleza,por dentro tudo está a desmoronar. São noites sem sono, momentos a sós de desânimo e impotência,muita impotência. 9 de Agosto 2012. Operado. retirados os 18,5 cm de intestino. Regresso a casa. Dietas, muitas dietas. Recuperação lenta. Cansaço. Nem um dia de férias. Tudo a tempos e a horas. A velocidade a que executava as tarefas eram o meu ponto forte, dando-me a ...