2 julho 2012, 12.30h. Sim. Atendi o telefonema. Não era para mim. A biópsia diz algo mau. Urgente consulta. Operação para ontem. Cancro. Porquê? Porquê? Cancro intestino. Desorientação.Desnorte. Dor, muita dor....silenciosa, profunda, interior. A vida parece ter sido suspensa em 2 molas de roupa numa qualquer corda.
Os dias sucedem-se e nada se sabe que possa desvirtuar essa dor, essa quase revolta, e mais tarde essa maldita impotência. Sim, sou forte, aguento, animo, desvalorizo, minto vezes sem conta sobre as questões da força da fé. Mas que fé? Como posso tranquilizar-me com a fé? Por fora avista-se uma fortaleza,por dentro tudo está a desmoronar. São noites sem sono, momentos a sós de desânimo e impotência,muita impotência.
9 de Agosto 2012. Operado. retirados os 18,5 cm de intestino. Regresso a casa. Dietas, muitas dietas. Recuperação lenta. Cansaço. Nem um dia de férias. Tudo a tempos e a horas. A velocidade a que executava as tarefas eram o meu ponto forte, dando-me a falsa convicção de um domínio completo sobre a dor. Adoro a minha adrenalina. E mesmo de madrugada,quando o sono tarda, arrumo coisas,faço limpezas, gesticulo com o que me vem à cabeça, mesmo cozinhar às 5h da manhã. A adrenalina dá-me a sensação de normalidade.
Olho vezes sem conta para ele, quando ele não me vê. Olho de forma desencontrada para tentar medir o grau da sua dor. E vejo nele medo, apenas medo, muito medo. E lamento que tudo tenha que ser assim. Férias canceladas. Crianças presas ao problema. E a dor de não se saber o que vai ser o futuro.
Voltarei a este exato momento. Setembro 2012.
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