Tarde tão amena. Um sol quente e os pássaros que não param de cantarolar. As plantas estão viçosas. Eles vêm futebol, eu vim para uma cadeira baloiço colocada na varanda de propósito para ouvir os pássaros e fingir que não passam carros na estrada.
A tia faleceu. 23h de ontem, esperavam ainda o INEM, mas não houve nada a fazer. A causa "morte natural", dito pela GNR e equipa do INEM. Não é necessária autópsia. O funeral está marcado para as 16h de amanhã. Após algumas considerações iremos todos ao funeral. As crianças sabem quem é a tia-avó, mas pouca ou nenhuma convivência tiveram com ela. Pessoa generosa, simpática, afável, acolhedora e tudo o mais que se possa dizer de bem. Teve uma vida difícil, grande parte passada lá fora. Tudo aguentou. Mas a maior dor foi não poder ter filhos. Contou-me vezes sem conta. Como se a sua vida se dividisse entre rezas, orações e missas e a dor de não ter filhos. Visitamos essa tia-avó tantas quantas vezes pudemos e quisemos, ressalvando que a complexidade da vida e da organização do tempo não nos deixa grande margem para esses convívios.
Reflito na morte e na ordem arbitrária como cada um morre, tal como a ordem arbitrária com que cada um nasce, mas para nascer ainda assim pode programar-se, já para morrer é impossível.
E chegados aqui, reflito todo o processo que me fez mudar tanto. Não choro, como se não tivesse lágrimas e a existirem, caiem por dentro. A dor é embaciada com uma espécie de apatia. E contudo entristece-me que não se possa encarar a morte como algo tão normal como viver ou nascer. Seria tão mais fácil.
Para essa tia-avó e todos os outros que morrerão antes de mim PAZ À SUA ALMA.
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